Arquivo para ‘de ser mãe’

Janeiro 16, 2012

de saudável…

quando se coloca uma criança numa escola australiana, sabe-se que para alem da total falta de maneiras se vão herdar uma serie de tradiçoes alimentares muito pouco saudáveis.

com a língua vem uma linguagem corporal de uma coolness pouco recomendada para quem queira viver alegremente neste lar- as correcções aumentaram cerca de 90% desde que a criança se escolariza no meio down under.

a par disso há uma saudavel interacção com a comunidade que se traduz num conjunto de iniciativas para angariação de fundos para isto e para aquilo, sendo isto e aquilo o projecto de pre-school dos miudos que vivem no bairro da escola, a biblioteca de uma outra escola nao sei bem onde porque não sou uma mae disponivel, e mais duas ou três actividades para salvar qualquer coisa muito importante.

esta angariação de fundos é feita com a venda de coisas e as coisas são regra geral coisas de comer. assim temos ice cups a meio da manhã mas é importante contribuir porque vai ajudar os pobres e temos queques disto e daquilo para comprar porque também vai ajudar imenso os pobres e mais isto e aquilo muito doce que também vai ajudar os pobres. no fundo, a felicidade de uma série de crianças e a economia de outras tantas depende dos níveis de consumo de açucar da minha filha. e eu lá vou aceitando porque nesta familia gosta-se muito de pobres; de tal forma que na realidade se eles nao existessem ninguem neste núcleo familiar teria emprego, o que não deixa de ser uma reprovavel ironia.

mas a verdade é que esta criança pouco habituada a doces, vê-se subitamente exposta a esta nova realidade podendo fundamentar a sua adesão à nova dieta numa acção de puro altruismo. doar directamente o dinheiro privando-a do tremendo sacrificio de comprar doces numa base diária seria boicotar um sistema caloricamente construido numa perspectiva didactica.

assim, temos agora em casa uma miuda que gosta de doces, que não é amiga da fruta e que usa adjectivos que eu desconhecia, em estrangeiro, para qualificar os broculos. porque comer vegetais não é cool! e se levas um packed lunch, nada deverá ter um tom verde caso não queiras ser um social reject.

por aqui estamos definitivamente nas tintas para o processo de aceitação social da criança no grupo com base na dieta alimentar. estamos portanto “in paints”!

apesar da criança na maioria das vezes comer na cantina da escola, a coisa não melhora. e nào melhora porque o rebento estuda num local onde a cantina se resume a duas senhoras representantes de dois restaurantes, que vão todas as manhãs munidas de um menu com fotos, recolher os pedidos para almoço de cada criança. na hora respectiva, os meninos encontram na mesa no jardim uma caixinha com o nome deles e o prato que pediram. as escolhas da minha filha alternam invariavelmente entre os pratos filipinos e os tailandeses com excepção da sexta feira, em que o senhor das pizzas também aparece por lá.

o ser nova numa escola onde não dominava a língua e tudo e todos eram estranhos, fez-nos ser permissivos e aceitar rotinas e hábitos absolutamente fora da norma de casa. Um ano depois e passado o período de adaptação, chegou o momento de recuar e reeducar os habitos e maneirismos da criança. depois do cold turkey das férias grandes (que aqui o ano escolar é mais ou menos ao contrário e começamos com as aulas a 26 de Janeiro), vem o fim de semana de negociação de menus escolares. 3 dias de almoço levado de casa alternados com 2 dias de almoço na escola. um ice cup por semana. muitos verdes e vermelhos na comida e refeições preparadas por ela própria na vespera antes de se ir deitar.

Por agora, e para recuperar o vício da fruta, recortamos com os moldes das bolachas pedaços para o pequeno almoço.

As aparas ficam para a mãe…

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Dezembro 21, 2011

de fazer o Natal…

 

por muito que se sonhe com um Natal tropical, longe da chuva e do frio do Dezembro Europeu, a verdade é que vivê-lo entre a praia e o ar condicionado a 16 graus na sala, num esforço tremendo para baixar a temperatura, não é agradável.

As bolachas de gengibre sabem melhor com chá quente. Fazer biscoitos é um desprazer por causa do calor do forno. Decorar bolachas é uma impossibilidade porque tudo derreterá com  calor. Nas janelas da sala estão pateticamente penduradas as meias de Natal. Quentinhas, com bonecos de neve e temas de inverno. Chinesas. Ao lado as botas da tia Jana. Personalizadas. A um canto um pinheiro verde vivo de plastico. Chinês. Decorado com bolas todas elas muito vintage e muito plasticas. Chinesas. E curiosamente gera-se uma certa harmonia e a coisa resulta. E o Natal entra pela sala e agarramo-no a ele. Longe de tudo o que se tornou a nossa tradição. Longe das pessoas que o formam e lhe dão consistência.

E criamos assim uma atmosfera artificial a uma temperatura artificial e esforçamo-nos para que no meio da saudade e do vazio que a ausência de gente querida nos deixa, se crie um espaço que deixe memórias das que vale a pena recordar.

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Agosto 17, 2011

de melhorar de vida…

a minha filha aprendeu 3 acordes na viola e finalmente decorou-os.

ontem compôs uma música e fez uma letra.

a música fala do cão.

não fala da mãe e de quanto a ama.

fala do cão.

e de que o cão morde e foge.

a letra é em estrangeiro. E isso faz-me perdoar o facto de que a sua primeira composição não é sobre a mãe e sobre quanto a ama.

em inglês poderemos cobrir muito mais mercados.

terei que desistir do trabalho e mudar-me para St Barts.

Hollywood não faz nada pela educação de uma criança.

Março 30, 2011

de aniversário…

A minha filha fez anos.

Foram 9.

Fez um convite lindo em Inglês.

Em Inglês.

Depois os meninos vieram e falaram e brincaram todos em Inglês.

Brincaram em Inglês porque a partir de certa idade as brincadeiras têm linguas. E à medida que crescem essa linguagem refina-se excluindo outros tipos de comunicação se não estivermos alerta.

Cá em casa manda-se a miuda à escola Internacional e depois imaginamos as sensações dos milhares de emigrantes Portugueses que mandam os filhos para as escolas dos países de acolhimento e vão buscá-los ao fim do dia a um outro planeta sem que ninguém os apoie na ponte entre esses dois mundos.

Na escola dela há meninas Africanas que tiram a peruca de cabelos lisos ao intervalo para arejarem a cabeça explicando que trocam de modelo todos os meses. Há meninas Japonesas que colocam os dois dedinhos no ar em todas as fotos e têm mães delicadas e doces para toda a gente. Há pais que vão ensinar origami e Francês e isto e aquilo e os miudos sentem-se uma comunidade que se reune periodicamente em Assembleia para mostrarem uns aos outros o que andam a fazer.

Mas mais importante do que isso, a minha filha fez 9 anos e pela primeira vez compreendi que ela é completamente feliz.

Em paz com ela própria, com o mundo que a rodeia e com o universo que criou.

E é nisso que ambos pensamos quando nos agarramos um ao outro na vã tentativa de não morder os pulsos quando ela toca pela enésima vez o “Persian Market” na pianola…

Parabéns, querida!

9

Foram nove…

Dezembro 30, 2010

de crescer…

basicamente é assim. Tens uma miuda pequena em casa que te faz babar a cada gracinha.
Tens que contar a toda a gente e arranjas um blog.

Vais pondo fotos, contando detalhes. Crias uma rede de leitores que partilham os teus dias e o processo de crescimento da miuda. Alguns dos leitores têm miudas da mesma idade ou idades semelhantes sendo fácil assim criar um processo de empatia.

Os anos vão correndo e vais criando a sensação de que há por aí uma serie de miudos que conheces sem nunca lhes teres tocado. Porque viste-os crescer na blogosfera. Porque acompanhaste as fotos de todos os momentos significativos da vida deles no Flickr. E gera-se uma sensação de uma certa intimidade. E perdes a sensação de escrever para estranhos porque lentamente começas a interagir com cada um dos teus leitores.

Mas a verdade é que para cada leitor que manifesta a presença, há uma serie de outros deles que se mantêm em silêncio e que vieram para ao teu blog porque googlaram algo relacionado com sexo e tu em tempos escreveste um post sobre a capa de um livro com uma senhora de perna aberta sem a modesta cueca e eles vêm parar aqui.

Entretanto a miuda cresce. E transforma-se aos 8 quase 9 numa pre adolescente com maminhas. E tem imensas opiniões sobre as coisas. Tem preferências, vive encantos e desencantos que lhe vão moldar a personalidade. Vês o esboço de um adulto e começas a conseguir adivinhar traços de como vai ser quando crescer mais ainda. E subitamente realizas que as gracinhas dela já não são tuas para contar. E que a ela já lhe assiste o direito de definir o que quer ou não quer que seja contado. E que ela criou o seu próprio conceito do que acha ridiculo e do que a pode ridicularizar. E é nessa altura que sentes que o espaço que criaste para a partilhar, terá que ser ocupado com qualquer outra coisa.

Esta filha já não é tua para contar.

E fica-se assim um bocadinho triste…

Junho 2, 2010

de calma…

às vezes as vidas trata-nos bem e dá-nos uma calma e sossego que retiram toda a vontade de escrever em blogs.

apesar disso promete-se um esforço!

Abril 8, 2010

de constatações…

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SMS para a Gui:

- Querida, és a menina mais bonita de toda a Ásia!

Resposta:

- Eu sei, mas Obrigada!

Abril 6, 2010

da Páscoa…

 

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com sol, praia e muita pulga de areia!

Março 30, 2010

de acertos…

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Os novos amigos já são queridos mas não substituem a tristeza da distância dos antigos.

E eu gosto que seja assim. Gosto da ideia de ter ajudado a moldar um ser com a capacidade de sofrer por quem gosta. Por muio que me angustie a tristeza dela. Por muito que a angustie a tristeza, a ela.

A saudade é um privilégio. A dor da saudade é inferior à dor de se não conseguir sentir falta de nada, de se não conseguir estabelecer laços com gente, coisas e sítios; deixar marcas e ficar marcada.

E assim vamos andando, construindo sem esquecer o que fica para trás.

Crescendo.

Março 25, 2010

de aniversário…

 

 

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8

8 anos!

Março 22, 2010

de fim de semana…

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os fins de semana revelam-se estupidamente curtos.

o cansaço ocupa-os. a vontade dormir retira tempo para o resto.

quarta é dia de aniversário longe das amigas do costume. os presentes serão pirosos para compensar a tristeza.

sai-se das lojas com a irritante gata japonesa  dentro de uma caixa perfeita e espera-se que isso compense.

sente-se a tentação de fazer o bolo a condizer.

e sabe bem ter estas preocupações de volta.

o fim de semana trouxe praia cristalina, picadas de insecto, diarreia de cão, sopa misou para uma barriga que dói, muito sol e a descoberta de um sítio novo com sumos de abacate.

espera-se pelo próximo fim de semana.

Arrastamo-nos os três para a segunda que chega, com muito pouca energia, com saudades da areia nos pés e a praia cristalina e preparados apra a próxima dor de barriga, picada de insecto, sumo de abacate e tentando não pensar muito na potencial diarreia, do cão que insiste em devorar areia …

Março 15, 2010

de adptasaun…

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há coisas mais fáceis outras mais difíceis.

apercebemo-nos de que a linguagem universal da brincadeira desaparece a partir de uma certa idade, causando algum isolamento e fazendo as crianças falarem outras línguas mesmo quando partilham a mesma.

os gostos definem-se, as preferências, os livros, os heróis dos filmes, as canções que se coreografam… e depois ningém sabe destas coisas, ninguém conhece, e a barriga tende a doer antes de dormir e logo pela manhã ao acordar…

o que ela não sabe ainda é que os crescidos também sentem estas coisas

Março 11, 2010

de pronta…

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prontinha para o processo de alfabetização!

Ziribidum soltem-se as letras!!!!

Março 10, 2010

de volta…

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saudades daquela pele ainda húmida depois do banho e do odor que se desprende dela.

saudades da voz calma antes do dormir, dos olhos meio fechados a tentar provar que ainda não há sono, das pequeninas teimas, do corpo enroscado na almofada, da preguiça ao acordar, das mãozinhas chatas no cabelo, das gargalhadas tontas a propósito de qualquer coisa insignificante, do rosa piroso em todo o objecto.

e tudo isso de volta em dose diária.

e então chega outra saudade.

saudade de quando tinha tempo para fazer lanchinhos depois da escola, acompanhar trabalhos de casa, participar em actividades, levar-te, trazer-te a todo o sitio, a qualquer hora, sem olhar para o relógio, sem ter que correr para o escritório, sem me justificar perante chefes estéreis de afectos.

e temos aqui o mar ao lado. e passamos por ele todas as manhãs. e hoje estava azul quase transparente porque não choveu. E deixamo-lo em hold até não haver reuniões onde os adultos tomam decisões de grande importância com impacto relativo.

E a saudade que fica é a de quando tudo o que eu fazia era ser tua mãe e os dias me devolviam uma satisfação em nada comparável à de um relatório sem correcções…

Agosto 3, 2009

da memoria..

O photojojo é um sistema que funciona através do flickr seleccionando fotos e enviando-as bimensalmente um ano depois.

Tem também cápsulas do tempo onde se guardam mensagens que serão enviadas no período  pré definido.

Hoje recebi 3 fotos de há um ano atrás:

A minha filha oriental com o céu de fim do dia no jardim da avó.

mae lae

A sangria de champanhe e frutos silvestres típica das festas de aniversario do irmão mais novo.

sangria

Os pés sujos adormecidos de final de dia de brincadeira descalça.

pes

E passa-se o dedo sobre o monitor e contorna-se um pezinho de cada vez…

Maio 24, 2009

de para a Gui #6

O Hermenegildo acorda de barriga para o ar. Que grande soneca!

No porto já começa a escurecer. O ferry partiu novamente levando outras pessoas, outras crianças, outras galinhas e outros cavalos. Os grandes navios ainda se vêem lá ao longe, e os automóveis estão agora muito alinhados à espera dos novos donos que os virão buscar. Os sacos de arroz sobem a montanha dentro de camiões e os funcionários do porto acendem os cigarros e caminham para a rua em direcção a casa.

O Porto fica silencioso e só se ouvem as ondas pequeninas a bater nas pedras. E então o Hermenegildo estica-se, estica-se a espreguiçar-se; cauda no ar, patinhas da frente dobradas e abre muito, muito a boca a bocejar.

- Meraaaaaaaaaaau! – que deve querer dizer “estou pronto para a aventura”, porque ele levantou-se com passos muito decididos a bater com força com as patas no chão, deixando as marcas em triângulo desenhadas no pó, muito direitas a apontar para a frente.

Apenas para a frente.

E chegou à outra ponta do porto, onde acaba o alcatrão e começa o mar.

E sentou-se.

Mexeu o narizinho e sentiu o cheiro forte do mar. Inspirou outra vez e mexeu as orelhas quando sentiu a brisa fresca a passar. O céu estava já coberto de estrelas e ele levantou a cabeça e olhou para elas. O mesmo movimento que fez quando olhou para a minha janela. A janela que fica entreaberta para ele poder entrar.

E pensou nisso e sentiu saudade.

Um peixinho saltou na água e ele lembrou-se do prato em tons de azul com formato de peixe no chão junto ao armário onde todos os dias ele encontra comida.

E pensou nisso e sentiu saudade.

E sentiu uma coisa por dentro, assim uma coisa desagradável, uma coisa que começou pequenina, pequenina e cresceu, cresceu até lhe chegar aos olhos e ao coração e se transformar em lágrimas. Essa coisa chama-se tristeza. A tristeza é uma coisa que aparece sem ser convidada e esconde-se dentro de nós. Depois quando quer sair transforma-se em lágrimas e rola pela cara abaixo. Rola, rola até chegar ao queixo. E se estivermos a escrever a tristeza pode cair em gotas em cima dos nossos desenhos e se a provarmos descobrimos que é salgada.

E ás vezes quando sentimos saudade sentimos tristeza. Mas a saudade do Hermenegildo não tinha tristeza.

Era uma saudade feliz.

Porque o prato em tons de azul com forma de peixe estará sempre no mesmo sítio ao lado do armário à espera dele.

Porque a janela do meu quarto estará sempre entreaberta à espera dele.

Porque o gato cinzento e o gato das manchas e o gato laranja com a pata branca e o outro gato irritante que mia de maneira esquisita estarão todas as noites no mesmo telhado e todas as tardes no mesmo muro e todas as manhãs nas casas dos donos deles. Porque há coisas no nosso mundo que nunca mudam e serão sempre sempre iguais.

Assim como a Margarida e a Ana rosa e a Carolina estarão sempre aí; no ballet, no piano, no recreio da escola. E se ficares podes vê-las todos os dias, mas nunca verás este porto onde chegam navios com automóveis na barriga, nunca verás o ferry que transporta pessoas, crianças, galinhas e cavalos, nunca sentirás este cheiro do mar no nariz, nem a baleia atrasada nem o céu laranja. E até os gatos percebem que o mundo é uma coisa grande. Grande, grande com línguas diferentes que é bom aprender, com meninas diferentes com quem é bom brincar.

E por isso o Hermenegildo fez:

-Miaudau! – que nós já sabemos que quer dizer “Nada me assusta”, e levantou novamente a cabeça para o ceú e agitou o nariz e sacudiu as orelhas e descobriu ao longe um barquinho de pesca parado na areia. E correu nessa direccão com passos muito decididos a bater com força com as patas no chão, deixando as marcas em triângulo desenhadas na areia, muito direitas a apontar para a frente.

Apenas para a frente.

Saltou para o barco e escondeu-se debaixo das redes de pesca.

- Miaudau! – “Nada me assusta”!

E a aventura está prestes a começar!

Miaudau, nada me assusta!

E agora diz tu baixinho:

- Miaudau, nada me assusta!

E agora devagar:

- Mi-au-dau, na-da me a-ssus-ta!

E agora a sussurrar:

- Miaudau nada me assusta!

Boa noite, minha Gui!

Miaudau, que nada te assuste.

Miaudau…

Maio 20, 2009

de para a Gui #5

Cansado da sala, dos quartos, do jardim e da pequena praia, cansado de viver num mundo tão pequeno, o Hermenegildo acorda determinado a mudar de vida.

Corre para a cozinha, toma o pequeno almoço na sua taça em forma de peixe em tons de azul e encaminha-se para o portão.

Olha para a direita e vê os meninos a brincar na rua. Olha para a esquerda e vê a estrada grande. Olha para trás e vê a casa com a varanda onde todos se sentam a beber café e contemplar o mar, e a porta da cozinha onde junto ao armário se encontra a taça em forma de peixe em tons de azul. Levanta mais a cabeça e olha para o meu quarto lá no cimo, com a janela entreaberta para que ele possa levantá-la com a pata e entrar durante a noite. E o Hermenegildo respira fundo e diz:

- Miau! – assim, apenas um simples “Miau” maldisposto que em língua de gato deve querer dizer “Adeus”, porque ele partiu estrada fora muito senhor dos seus bigodes, a bater com força com as patas no chão, deixando as marcas em triângulo desenhadas no pó, muito direitas a apontar para a frente. Apenas para a frente.

E desapareceu.

Caminhou durante duas horas ao longo do mar. Ao lado passam carros em alta velocidade, taxis amarelos, bicicletas verdes, motorizadas com muitas cores. E todos apitam, fazem pó e fumo, gritam uns com os outros.

- Miaudau! – Fez ele, que deve querer dizer “Nada me vai assustar”, porque ele continuou de passo certo deixando as mesmas marcas em triângulo desenhadas no pó, muito direitas a apontar para a frente. Apenas para a frente.

E caminhou mais uma hora. Passou em frente ao farol e sentou-se a descansar. Olhou para o mar e viu um atum a saltar e pensou:

- Miauuurau! – que deve querer dizer “Tenho fome” porque ouviu-se a barriga a reclamar. Mas como é um gato valente levanta-se e continua a viagem. E caminhou, caminhou, caminhou até que chegou ao porto.

E escondeu-se.

No porto há uma grande agitação; barcos carregados de sacos de arroz chegam. Pequenas filas de gente levam os sacos até um grande camião. Navios enormes abrem as portas e de dentro saem automóveis. O Ferry despeja pessoas e sacos e crianças e galinhas e cabras e dois cavalos que viajaram da ilha até aqui. E entre eles estão homens de Ataúro carregados com esculturas de madeira negras para vender aos Malae em Dili.

E o Hermenegildo esconde-se. Esconde-se bem escondido debaixo das folhas de uma bananeira baixinha. (As bananeiras não são árvores. As bananeiras são ervas gigantes, mas pouca gente sabe disso.)

- Miauraurau! – disse ele, que deve querer dizer “vou esperar”, porque ele deixou-se ficar ali muito quieto, mesmo muito quieto, tão quieto, tão quieto, que acabou por adormecer…

Maio 14, 2009

de para a Gui#4

Existem três formas de um gato se alimentar, pensou o Hermenegildo.

3!

Primeira forma: um gato pode esconder-se durante horas assim debaixo de uma mesa, ou debaixo de uma cadeira, ou mesmo dentro de um armário caso alguém se esqueça de o fechar. Espera, espera, e quando aparece um daqueles ratos tontos que pensa que por ser pequeno ninguém o vê, salta e come-o.

Possível problema, o rato é rápido e foge. O gato então tem que o perseguir e isso é uma coisa muito cansativa.

Segunda forma: um gato esconde-se atrás de uma cortina ou atrás de uma bota alta de borracha que não esteja muito suja e espera que um outro gato que esteja há horas escondido debaixo de uma mesa, ou debaixo de uma cadeira, ou mesmo dentro de um armário que alguém se tenha esquecido de fechar, salte e apanhe um daqueles ratos tontos que pensa que por ser pequeno ninguém o vê. Quando o outro gato estiver quase quase a comê-lo, assim mesmo com a boca aberta aberta e os olhos um bocadinho fechados por a boca estar tão aberta , então nesse momento o gato salta e rouba-lhe o rato.

Possível problema, o outro gato é rápido e foge. O gato tem que o perseguir e isso é uma coisa muito cansativa.

Terceira forma: um gato faz um ar amoroso e roça-se nas pernas da sua dona, ela pega-lhe ao colo e ele começa a fazer rom-rom. A dona, absolutamente encantada corre a abrir uma latinha especial de patê de sardinha.

Possível problema: a dona constata que o gato lhe encheu de pêlos o vestido comprido dourado com borboletas pretas em veludo e coroa a condizer. Fica furiosa porque estava mesmo mesmo para sair e torna-se um bocadinho agressiva. O gato tem que fugir e isso é uma coisa muito cansativa.

Mas existe uma quarta forma que só o Hermenegildo conhece: um gato senta-se em cima do frigorifico onde estão sentados alguns bonecos um pouco estranhos, e fica muito quieto. Mas mesmo muito muito quieto. Tão quieto que ninguém percebe que ele respira, que ele mexe os olhos, que ele abana as orelhas ou sacode os bigodes. Quieto como se fosse apenas mais um boneco! E espera porque sabe que alguém terá fome. Alguém muito distraído virá cozinhar. Alguém irá virar as costas por um momento, ou esquecer-se de qualquer coisa no quarto e ir lá a correr buscá-la. E nessa altura um gato esperto salta de cima do frigorifico, lança-se sobre o prato, escolhe o mais saboroso dos pedacinhos de carne e foge silenciosamente para o jardim…

E agora que expliquei as 3 formas possíveis de um gato se alimentar e a forma mais simples de um gato o conseguir fazer, vou voltar para a cozinha porque o meu lanchinho está a arrefecer.

- Oh! Onde está o meu crepe? Hermenegiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiildo!

Abril 8, 2009

de tem mesmo que ser…

sketch1
hoje parto para Timor, por 60 dias sem filha.
Março 24, 2009

de aniversário…

7 anos!

7!

sete…

e amigos amorosos

Tio Verme, Tiphaine, Paulinho, Tomé, Lita, Yukiko, Sienna, Anne-Marie, Carmen, Silvia, Diogo, Maria João, Sara, Diana, D.Marga, Carlos, Erin, Kumi, Yoshi, Florian, Tina, que mesmo a viverem já no dia seguinte, ou no dia anterior e que mesmo sem estarem fisicamente connosco há imenso tempo, recordam a data, celebram à distância e relembram-me o que dificilmente esqueço: que é um privilégio ser mamã desta minha menina.

E às amigas Flickr que fazem já parte dos nossos dias…

E à familia…

Obrigada!

e Domingo celebramos!

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