Arquivo para ‘da vida’

Janeiro 25, 2012

de memória…

Quando via as imagens do massacre de santa cruz nunca imaginei que um dia passaria por lá diariamente queixando-me do trânsito.

Por vezes o tempo relativiza o drama e esvazia as coisas da sua memória

Santa Cruz é um atalho para quem quer chegar a Bemori sem a atrapalhação do trânsito de Audian

Uma vez por ano Santa Cruz recupera o seu estatuto de simbolo de resistência e opressão.

Uma vez por ano não há alternativa ao trânsito de Audian.

Janeiro 16, 2012

de saudável…

quando se coloca uma criança numa escola australiana, sabe-se que para alem da total falta de maneiras se vão herdar uma serie de tradiçoes alimentares muito pouco saudáveis.

com a língua vem uma linguagem corporal de uma coolness pouco recomendada para quem queira viver alegremente neste lar- as correcções aumentaram cerca de 90% desde que a criança se escolariza no meio down under.

a par disso há uma saudavel interacção com a comunidade que se traduz num conjunto de iniciativas para angariação de fundos para isto e para aquilo, sendo isto e aquilo o projecto de pre-school dos miudos que vivem no bairro da escola, a biblioteca de uma outra escola nao sei bem onde porque não sou uma mae disponivel, e mais duas ou três actividades para salvar qualquer coisa muito importante.

esta angariação de fundos é feita com a venda de coisas e as coisas são regra geral coisas de comer. assim temos ice cups a meio da manhã mas é importante contribuir porque vai ajudar os pobres e temos queques disto e daquilo para comprar porque também vai ajudar imenso os pobres e mais isto e aquilo muito doce que também vai ajudar os pobres. no fundo, a felicidade de uma série de crianças e a economia de outras tantas depende dos níveis de consumo de açucar da minha filha. e eu lá vou aceitando porque nesta familia gosta-se muito de pobres; de tal forma que na realidade se eles nao existessem ninguem neste núcleo familiar teria emprego, o que não deixa de ser uma reprovavel ironia.

mas a verdade é que esta criança pouco habituada a doces, vê-se subitamente exposta a esta nova realidade podendo fundamentar a sua adesão à nova dieta numa acção de puro altruismo. doar directamente o dinheiro privando-a do tremendo sacrificio de comprar doces numa base diária seria boicotar um sistema caloricamente construido numa perspectiva didactica.

assim, temos agora em casa uma miuda que gosta de doces, que não é amiga da fruta e que usa adjectivos que eu desconhecia, em estrangeiro, para qualificar os broculos. porque comer vegetais não é cool! e se levas um packed lunch, nada deverá ter um tom verde caso não queiras ser um social reject.

por aqui estamos definitivamente nas tintas para o processo de aceitação social da criança no grupo com base na dieta alimentar. estamos portanto “in paints”!

apesar da criança na maioria das vezes comer na cantina da escola, a coisa não melhora. e nào melhora porque o rebento estuda num local onde a cantina se resume a duas senhoras representantes de dois restaurantes, que vão todas as manhãs munidas de um menu com fotos, recolher os pedidos para almoço de cada criança. na hora respectiva, os meninos encontram na mesa no jardim uma caixinha com o nome deles e o prato que pediram. as escolhas da minha filha alternam invariavelmente entre os pratos filipinos e os tailandeses com excepção da sexta feira, em que o senhor das pizzas também aparece por lá.

o ser nova numa escola onde não dominava a língua e tudo e todos eram estranhos, fez-nos ser permissivos e aceitar rotinas e hábitos absolutamente fora da norma de casa. Um ano depois e passado o período de adaptação, chegou o momento de recuar e reeducar os habitos e maneirismos da criança. depois do cold turkey das férias grandes (que aqui o ano escolar é mais ou menos ao contrário e começamos com as aulas a 26 de Janeiro), vem o fim de semana de negociação de menus escolares. 3 dias de almoço levado de casa alternados com 2 dias de almoço na escola. um ice cup por semana. muitos verdes e vermelhos na comida e refeições preparadas por ela própria na vespera antes de se ir deitar.

Por agora, e para recuperar o vício da fruta, recortamos com os moldes das bolachas pedaços para o pequeno almoço.

As aparas ficam para a mãe…

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Janeiro 6, 2012

de aniversário…

 

 celebramos ao contrário o aniversário; ao acordar, uma massagem, dormimos à hora de almoço, tomamos o pequeno almoço à hora de jantar.

um dia de pernas para o ar, a celebrar a vida do homem que rejeita a normalidade, que abraça o absurdo, que respira criatividade, que vive de acordo com regras que escapam à sensibilidade da gente comum que se cruza com ele, que chora escondido a ver filmes, e  não sabe lidar com o quotidiano,.

Parabéns, Gonçalo!

Janeiro 4, 2012

de 1 de Janeiro….

estamos muito contentes!

mas mesmo muito muito contentes!

o novo ano começou com um frigorifico morto e uma tentativa de assalto à casa.

recebemos estes contratempos de coração aberto porque são manifestações do divino!

 Não há prova maior da existência de Deus do que vê-lo em plena acção a castigar cordeiros pecadores que iniciam o ano a rirem-se dos que o tentavam celebrar ao ar livre sendo apanhados pela chuva.

Senhor, aceitamos humildemente a lição. Agradecíamos igual aplicação ae Vossa parte na disciplina da empregada que se demitiu e ficou com a nossa chave de casa coincidindo isso com a tentativa de assalto.

Senhor, ela é Protestante.

Agosto 15, 2011

de regresso….

Por muito que tente não consigo recuperar a rotina de escrever no Blog.

Não consigo encontrar novidade no dia a dia ou descobrir-lhe momentos que mereçam nota.

O fascínio de se viver numa realidade diferente está apagado pelo cansaço. Já nada é novo e perdemos a capacidade de nos surpreender. Vivemos de comparações e o que já passou supera sempre o presente.

Cansados da dieta alimentar, cansados das pessoas, dos cortes de luz, da água que cheira mal na torneira, do leite que aparece e desaparece nos supermercados, do frango brasileiro, dos preços absurdos, do trânsito caótico onde não existem regras e aconteça o que acontecer a culpa será sempre nossa porque somos estrangeiros, da desvalorização do dólar, dos tubarões no mar agora que os crocodilos estão mais discretos.

gostava de por momentos, só por uns momentos, fazer coisinhas fúteis; ir a um flee market, tocar em coisas velhas, passear na rua sem conviver com a permanente pobreza, atravessar numa passadeira, beber água da torneira, parar e comprar um jornal, apetecer-me cozinhar e poder efectivamente encontrar os ingredientes, dormir de janela aberta, não ter chaves de cadeados, cumprir regras de trânsito, receber correio…

Assim, só por momentos que fosse…

Março 30, 2011

de aniversário…

A minha filha fez anos.

Foram 9.

Fez um convite lindo em Inglês.

Em Inglês.

Depois os meninos vieram e falaram e brincaram todos em Inglês.

Brincaram em Inglês porque a partir de certa idade as brincadeiras têm linguas. E à medida que crescem essa linguagem refina-se excluindo outros tipos de comunicação se não estivermos alerta.

Cá em casa manda-se a miuda à escola Internacional e depois imaginamos as sensações dos milhares de emigrantes Portugueses que mandam os filhos para as escolas dos países de acolhimento e vão buscá-los ao fim do dia a um outro planeta sem que ninguém os apoie na ponte entre esses dois mundos.

Na escola dela há meninas Africanas que tiram a peruca de cabelos lisos ao intervalo para arejarem a cabeça explicando que trocam de modelo todos os meses. Há meninas Japonesas que colocam os dois dedinhos no ar em todas as fotos e têm mães delicadas e doces para toda a gente. Há pais que vão ensinar origami e Francês e isto e aquilo e os miudos sentem-se uma comunidade que se reune periodicamente em Assembleia para mostrarem uns aos outros o que andam a fazer.

Mas mais importante do que isso, a minha filha fez 9 anos e pela primeira vez compreendi que ela é completamente feliz.

Em paz com ela própria, com o mundo que a rodeia e com o universo que criou.

E é nisso que ambos pensamos quando nos agarramos um ao outro na vã tentativa de não morder os pulsos quando ela toca pela enésima vez o “Persian Market” na pianola…

Parabéns, querida!

9

Foram nove…

Dezembro 30, 2010

de crescer…

basicamente é assim. Tens uma miuda pequena em casa que te faz babar a cada gracinha.
Tens que contar a toda a gente e arranjas um blog.

Vais pondo fotos, contando detalhes. Crias uma rede de leitores que partilham os teus dias e o processo de crescimento da miuda. Alguns dos leitores têm miudas da mesma idade ou idades semelhantes sendo fácil assim criar um processo de empatia.

Os anos vão correndo e vais criando a sensação de que há por aí uma serie de miudos que conheces sem nunca lhes teres tocado. Porque viste-os crescer na blogosfera. Porque acompanhaste as fotos de todos os momentos significativos da vida deles no Flickr. E gera-se uma sensação de uma certa intimidade. E perdes a sensação de escrever para estranhos porque lentamente começas a interagir com cada um dos teus leitores.

Mas a verdade é que para cada leitor que manifesta a presença, há uma serie de outros deles que se mantêm em silêncio e que vieram para ao teu blog porque googlaram algo relacionado com sexo e tu em tempos escreveste um post sobre a capa de um livro com uma senhora de perna aberta sem a modesta cueca e eles vêm parar aqui.

Entretanto a miuda cresce. E transforma-se aos 8 quase 9 numa pre adolescente com maminhas. E tem imensas opiniões sobre as coisas. Tem preferências, vive encantos e desencantos que lhe vão moldar a personalidade. Vês o esboço de um adulto e começas a conseguir adivinhar traços de como vai ser quando crescer mais ainda. E subitamente realizas que as gracinhas dela já não são tuas para contar. E que a ela já lhe assiste o direito de definir o que quer ou não quer que seja contado. E que ela criou o seu próprio conceito do que acha ridiculo e do que a pode ridicularizar. E é nessa altura que sentes que o espaço que criaste para a partilhar, terá que ser ocupado com qualquer outra coisa.

Esta filha já não é tua para contar.

E fica-se assim um bocadinho triste…

Outubro 8, 2010

de Casámos…

Abril 6, 2010

da Páscoa…

 

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com sol, praia e muita pulga de areia!

Março 30, 2010

de acertos…

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Os novos amigos já são queridos mas não substituem a tristeza da distância dos antigos.

E eu gosto que seja assim. Gosto da ideia de ter ajudado a moldar um ser com a capacidade de sofrer por quem gosta. Por muio que me angustie a tristeza dela. Por muito que a angustie a tristeza, a ela.

A saudade é um privilégio. A dor da saudade é inferior à dor de se não conseguir sentir falta de nada, de se não conseguir estabelecer laços com gente, coisas e sítios; deixar marcas e ficar marcada.

E assim vamos andando, construindo sem esquecer o que fica para trás.

Crescendo.

Março 25, 2010

de aniversário…

 

 

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8

8 anos!

Março 22, 2010

de fim de semana…

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os fins de semana revelam-se estupidamente curtos.

o cansaço ocupa-os. a vontade dormir retira tempo para o resto.

quarta é dia de aniversário longe das amigas do costume. os presentes serão pirosos para compensar a tristeza.

sai-se das lojas com a irritante gata japonesa  dentro de uma caixa perfeita e espera-se que isso compense.

sente-se a tentação de fazer o bolo a condizer.

e sabe bem ter estas preocupações de volta.

o fim de semana trouxe praia cristalina, picadas de insecto, diarreia de cão, sopa misou para uma barriga que dói, muito sol e a descoberta de um sítio novo com sumos de abacate.

espera-se pelo próximo fim de semana.

Arrastamo-nos os três para a segunda que chega, com muito pouca energia, com saudades da areia nos pés e a praia cristalina e preparados apra a próxima dor de barriga, picada de insecto, sumo de abacate e tentando não pensar muito na potencial diarreia, do cão que insiste em devorar areia …

Março 15, 2010

de adptasaun…

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há coisas mais fáceis outras mais difíceis.

apercebemo-nos de que a linguagem universal da brincadeira desaparece a partir de uma certa idade, causando algum isolamento e fazendo as crianças falarem outras línguas mesmo quando partilham a mesma.

os gostos definem-se, as preferências, os livros, os heróis dos filmes, as canções que se coreografam… e depois ningém sabe destas coisas, ninguém conhece, e a barriga tende a doer antes de dormir e logo pela manhã ao acordar…

o que ela não sabe ainda é que os crescidos também sentem estas coisas

Fevereiro 17, 2010

de ondas…

n/aA chuva em Dili traz atrás de si todo o lixo da montanha, tingindo o mar de castanho, decorando-o com todo o tipo de embalagens.

A chuva  traz o quotidiano para o mar; as embalagens de noodles, os copinhos plásticos de água. E se nos sentarmos quietos ali para os lados do Ocean View, quando a ribeira se decide a ir por outros caminhos,  que não os do costume, vemos a água em velocidade a romper pela terra, chegando-se à estrada e dirigindo-se ao mar e entrando nele em conflito, provocando ondas de puro chocolate com uma violência moderada.

A violência moderada é uma coisa muito irritante.

Setembro 19, 2009

de massagem 2 …

a menina desta vez não levanta as mãos não junta as palmas e não reza.

não chama o Deus para as mãos.

e massaja.

no dia seguinte acorda-se repousada pela primeira vez desde há muito tempo.

e fica-se a pensar que talvez a dor não exista quando Deus não é envolvido no assunto.

Setembro 15, 2009

de massagem 1 …

A menina levanta os braços, junta as palmas e fecha os olhos.

inspira.

ausenta-se.

reza.

e sente-se imediatamente que vai ser bom porque ela chamou o Deus para as mãos.

apesar disso, no dia seguinte dói tudo.

chame-se-lhe justiça divina…

Setembro 11, 2009

de amor e de sombras…

Irritam-me os blogs intimistas, de grande auto-análise e partilha, egocêntricos, praticamente anais.

Falemos então de mim.

Estou doente.

E repito: estou doente.

E digo-o outra vez: estou doente.

Estar doente não é estar fraco, nem fragilizado, nem dependente. Avaria-se-nos uma coisa. Concertamo-la. Ou não. No meu caso concertamo-la e pronto.

E fica-se triste, claro!

E chora-se e tal. Mas depois desperta-se e organizam-se as coisas e é bom quando olhamos à volta e vemos gente. Ou mesmo sem olharmos sentimos a gente lá.

E a gente não nos agarra com abraços nem nos dá beijinhos no dói-dói. Mas procuram links na net, preços, disponibilizam férias insistem em viagens afuguentam ruidosamente a solidão e a angústia que inevitavelmente se sente quando olhamos o espelho e dizemos a nós próprios: “Estou doente”.

E sabemos que tudo vai ficar bem.

Sei que tudo vai fcar bem.

E não vou dedicar muito tempo a pensar nisso.

Começou a chover em Dili. E quando a chuva bate com força no telhado de zinco e me deito no meu quarto agora branco, agora praticamente organizado e sinto a gente através do som das gotas grossas, sei que este é o meu sítio e definitivamente esta é a minha gente.

E tudo está bem.

Setembro 5, 2009

de peixes e pássaros…

fishPasso a manhã a explicar à siciliana de serviço recentemente obcecada por Pablo Neruda, por ser talvez o único poeta de expressão castelhana que conhece(!!!!), que os poemas que escolhe são uma grande tontice e ninguém se toca quando lê sobre a a alma morta e o sofrimento atroz do espírito.

Passo-lhe um excerto do “livro das perguntas” de Neruda e leio-lhe “Ou não seria a vida um peixe, preparado para ser pássaro?”. E explico-lhe o sentido. Ou o sentido que lhe dou. E ela abre muito os olhos como quando se é criança e se descobre uma coisa ou como quando se é adulto e alguém põe em palavras aquilo que desesperadamente não conseguimos verbalizar.

E a manhã continuou com peixes e pássaros soltos no nosso gabinete e o momento foi bonito.
Assim mesmo, bonito. Como só podem ser bonitas as coisas tocadas por espíritos Chilenos (saudades de Chiloé, saudades de Chiloé…)

Depois de almoço ao regressar ao escritório, pela estrada do farol, há uma pequena onda que se ergue salpicando o alcatrão, trazendo na crista qualquer coisa que cai na estrada.

Era um peixe.

E eu paro e saio e aproximo-me dele com a urgência dos que julgam que têm uma missão.

Apanho-o e ele debate-se e sinto-lhe a pele fria nas mãos e agarro-a com a outra e devolvo-o ao mar.

E perco-o de vista.

Sorrio achando tudo aquilo hilariante tudo aquilo extraordinário tudo aquilo surpreendentemente fantástico depois de uma manhã de pássaros e peixes à solta no gabinete.

Mas à medida que o tempo corre, à medida que a tarde passa e os peixes e pássaros se vão retirando, de cada vez que cheiro as mãos e não lhes sinto o odor que deveria lá estar, sinto o erro.

E penso na vida peixe preparada para ser pássaro, que sobe até à crista da onda e voa caindo na estrada e nas mãos que a agarram e devolvem ao sítio de onde quis sair, negando-lhe o sonho.

e as mãos foram as minhas.

Agosto 19, 2009

de acontece…

há dias em que nada faz muito sentido. organiza-se um raciocínio e transformamo-lo em palavras mas as palavras não soam como as pensámos e a coisa que se diz é a coisa que se pensou mas soava muito melhor na nossa cabeça.

as palavras são coisa muito perigosa e com grande tendência para a traição. soltamo-las e quando damos conta elas causam um número infinito de encolheres de ombro, suspiros profundos e sensações de tédio infinito. e quando olhamos para elas mal as reconhecemos porque as tontas vestiram-se de outra forma.

a tecnologia de comunicação é também muito matreira. a pessoa na sua inocência vê-a como uma ferramenta de eliminação da distância. mas não é bem assim. os teclados são obra do demo. a pessoa digita e espera em frente ao monitor – qualquer que seja o seu tamanho – e concede uma janela temporal de não menos que 3 minutos à resposta. o blackberry anda por aí a arruinar coisas que no tempo dos serviços de snail mail teriam 80% de possibilidade de sobrevivência saudável.

as relações passaram a depender da qualidade de acesso e bom funcionamento dos meios tecnológicos. a medida da emoção é feita através da rapidez da resposta. isso do amor é uma questão de timing.

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