A noite de fim de ano foi passada em casa. Na cozinha.
Sacrificaram-se lagostas. Grandes e agressivas apesar de mortas. Nas pontas dos meus dedos ficaram marcados em memória, os piquinhos de cada uma. Morreram com dignidade.
Nesta casa faz-se extensiva pesquisa antes de preparar um prato. Aquando da confecção, todas as receitas são devidamente ignoradas.
Da cozinha gostamos dos odores que se vão libertando, do som da faca a tocar ritmicamente a madeira, dos minutos de pausa em frente à ventoinha, dos cães muito silenciosamente sentados seguindo cada movimento, da música lá ao fundo, dos foguetes dos vizinhos, das tekis quietas na parede e detestamos a louça por lavar. Ou melhor, detestamos lavá-la.
A miuda cá de casa experimentou champanhe pela primeira vez. Assim só um bocadinho. E lamentavelmente gostou. A miuda cá de casa ofereceu-se para terminar a bebida dos outros. Consta que a avó da miuda costumava em pequena, às escondidas, terminar o fundinho do copo dos convidados da casa. Hoje em dia diz que o alcool lhe dá alergia… tecnicas para esconder um passado pouco católico!
Minutos após a meia noite, chove torrencialmente. Daquelas chuvas de gotas grossas e rápidas. E a nossa casa no cimo de Vila Verde foi como sempre das primeiras a senti-la. De volta à sala vindos do jardim inundado, ocorre-nos subitamente que na televisão se transmite a festa organizada pelo Governo em frente ao Palácio e ligamos o aparelho na esperança de que a chuva ainda lá não tenha chegado. Esta esperança não foi motivada pela preocupação. Esta esperança foi motivada pelo desejo de termos a oportunidade de ver a chuva a chegar e as pessoas a correr a fugir, assim em directo na tv.
E Deus na sua imensa bondade, fez-nos esperar 3 a 4 minutos mas concedeu-nos essa Graça.
por muito que se sonhe com um Natal tropical, longe da chuva e do frio do Dezembro Europeu, a verdade é que vivê-lo entre a praia e o ar condicionado a 16 graus na sala, num esforço tremendo para baixar a temperatura, não é agradável.
As bolachas de gengibre sabem melhor com chá quente. Fazer biscoitos é um desprazer por causa do calor do forno. Decorar bolachas é uma impossibilidade porque tudo derreterá com calor. Nas janelas da sala estão pateticamente penduradas as meias de Natal. Quentinhas, com bonecos de neve e temas de inverno. Chinesas. Ao lado as botas da tia Jana. Personalizadas. A um canto um pinheiro verde vivo de plastico. Chinês. Decorado com bolas todas elas muito vintage e muito plasticas. Chinesas. E curiosamente gera-se uma certa harmonia e a coisa resulta. E o Natal entra pela sala e agarramo-no a ele. Longe de tudo o que se tornou a nossa tradição. Longe das pessoas que o formam e lhe dão consistência.
E criamos assim uma atmosfera artificial a uma temperatura artificial e esforçamo-nos para que no meio da saudade e do vazio que a ausência de gente querida nos deixa, se crie um espaço que deixe memórias das que vale a pena recordar.
“Quinto:As bloggers de sucesso publicam livros ou participam neles e são entrevistadas em media variados. Hummm… Este é mais dificil! Só mesmo com publicações de autor ou se falar com o jornal cá da terra porque tenho um primo que tem um vizinho que tem um cunhado…”
Ok! Está feito!
A C&T Publishing, que é uma editora Americana da área dos Crafts, convidou-me a participar numa publicação colectiva só sobre Calendários do Advento.
Eu, como sou uma pessoa educada e pouco habituada a dizer que não, disse então que sim.
Nada contrariada e diria mesmo ligeiramente histérica.
Para efeitos estatisticos sou uma Portuguesa publicada no estrangeiro. O resto são detalhes.
É lógico que nunca lhes mandei as instruções porque me fui esquecendo e a mãe, muito à pressa, lá pôs os chinelitos do advento em correio expresso a partir de Portugal e mandou aquilo para a América tendo pago os selos!
Obrigada, mãe!
Portanto, não vos estou a incitar a comprar o livro, até porque ainda estamos em Fevereiro.
Longe de mim a ideia de vos fazer comprar uma coisa só porque eu estou lá e muito provavelmente sendo aquela que só tem fotos porque não mandou o texto…
Longe de mim amaldiçoar-vos por isso.
O importante é que retenham o seguinte: agora posso dizer em estrangeiro nas entrevistas de trabalho - oh yes, I’m published! - rezando para que ninguém peça detalhes!
À minha frente desfilam uma a uma jovens adolescentes que procuram trabalho.
Cabelos compridos. Uns mais do que outros. Presos em ganchos ou elásticos com rabos-de-cavalo longos que lhes descansam nas costas. Naturalmente brilhantes e bem cuidados, com um toque de hena ainda em planta aqui e ali. Umas mais estreitas de corpo, outras com pequeninas formas.
Uma nova geração com acesso a educação em universidades estrangeiras da região que pouco ou nada lhes ensinaram. Que regressam com esperança e que acabarão maioritariamente como interpretes.
Pela mão passam-me as cópias dos diplomas em letras pomposas, as fotos nos documentos com o casaco do fotografo e a obrigatória ausência de sorriso.
E enquanto falam eu analiso-lhes o rosto, os olhos, o nariz, as mãos que se mexem a acompanhar o discurso. Os gestos tão femininos naqueles corpos tão pequeninos.
E descubro numa um sorriso parecido ao da minha filha, e noutra os olhos, e noutra talvez o nariz e tento compor a imagem dela adolescente, assim sentada em frente a alguém que lhe definirá o futuro, cheia de esperança, cheia de sonhos.
E peço desculpa e fecho-me na casa de banho a chorar.
Convulsivamente.
Viro-me e constato que a sanita está entupida.
Um grande cócó desolado flutua castanho e resistente.
Bolas! Toda a gente vai pensar que fui eu!
em Bali. Reencontro feliz com o nasi goreng.
mas falta-lhe qualquer coisa: uma piolha ao lado a apanhar com os dedos os graos que lhe descansam no colo…
em Kuala Lumpur de pes inchados. maldita classe economica.
a estrategia de nos fazerem sair do aviao atravessando a 1a classe ‘e uma especie de lembrete da companhia aerea: olha onde poderias vir deitado se te tivesses esforcado um pouco mais na vida…
e a comida sabe toda a lemon grass. saudades do lemon grass…
eventos recentes comprovam que há uma linha muito muito ténue que nos separa do outro lado. e vamos andando andando e subitamente não sentimos nada debaixo dos pés e a linha foi atravessada. e os outros procuram-nos e já não nos vêm e ainda há tão pouco estávamos ali.
na despedida da mulher-mãe que partiu esta noite que passou, ficou-me na mente a frase da S. :” que tenhas uma linda viagem”, e gosto de imaginar a Zé, com quem nunca tive intimidade, mas que fazia parte dos meus dias e de todos os que partilharam anos em Dili, dona da barca, em grande estilo, loura, linda, senhora do seu nariz a pôr definitivamente em pratos limpos essa história do sexo dos anjos.
e se alguém me disser que ela voltou para contar, eu acharei perfeitamente natural. porque as pessoas estão vivas enquanto são lembradas e algo me faz concluir que esta Zé vai durar muitos muitos anos.
começa-se com uma sensação de rubor. assim como se fossemos púdicas e alguém nos falasse em dívida pública. depois surge o incómodo. não se sabe de quê ou com quê. é um incómodo geral. depois chega uma comichãozinha. coisa leve e tentamo-nos a observar no espelho e descobrimos uma borbulhagem quase púrpura, mal distribuida e a coisa espalha-se. chega ás costas, ao peito, náuseas, mas apesar de tudo adormece-se. depois acorda-se a meio da noite, ou antes disso, mas convencionou-se que quando se acorda antes do amanhecer estamos a meio da noite, e não se respira devidamente.
tenta-se apanhar todo ar em grandes golfadas, mas não resulta. e a solução é ficar muito quieta, tão quieta que dê para enganar o corpo convencendo-o que não precisa de muito oxigénio… e com cada inspiração chega a memória da primeira vez; e revejo as cortinas brancas com bonecos pequeninos, a colcha amarela em quadrados de lã tecida, a posição da cama de ferro e o levantar-me a correr para abrir a janela e tentar respirar.
e lentamente a coisa acalma e volta-se a cair no sono, ainda muito quieta, enrolada na mesma posição. muito muito quieta. de manhã acorda-se já a respirar normalmente, mas o corpo, aborrecido com o truque fácil da imobilidade, vinga-se com um pescoço que se recusa a mover.
e anda-se assim, com o pescoço em posição de quem tem saudades do ontem.
e no dia seguinte a coisa repete-se.
e tudo, tudo por causa da maldita espetadinha com carne de porco…
O random.org – um gerador aleatório de números, escolheu o número 11! E eu mostraria a prova se soubesse como é que se copia aquilo e se cola a imagem aqui.
Ainda tentei criar o widget e copiar o html mas o wordpress ficou com soluços….
Ana Morais!
Envia-me o teu endereço postal para carla arroba vendinha ponto net.
Eu confesso que gostei imenso disto e acho que tenho que repetir a experiência…
deixem-me dizer-vos, eu muito hip mum ando há quase um ano a cantarolar à menina “Maggie uh uh uh nan nan nan nan nan nan Maggie uh uh uh” assim tipo como quando se é miuda e se inventa o inglês. e ía-me esquecendo dia após dia de descobrir de quem raio era isto e de fazer o download ilegal ou algo no género de forma a aprender mais do que uma frase.
mas como nem nunca tinha visto o clip (sim eu sou dos anos 80), nem ouvido a musica completa, quando pensei em finalmente o fazer fui por tentativas – ora quem poderia ser? os BSS? não… a voz lembrava quem? o olavo bilac… poderá isto ser português? mas tem um toque assim de will.i.am. e lá fui escrevendo maggie e alternando com nomes e nunca lá cheguei.
ora hoje de manhã, de chávena de chá na mão e adoçante e porque sou muito cool, lá ligo a MTV e estavam uns meninos a cantar a Maggie, que afinal não é MAggie mas “beggin”. a coisa não começou muito mal, os meninos iniciam o clip a jogar Halo3, mas a coisa evolui e acaba com a miuda a beber leite de gatas com a língua… enquanto o Tshawe Baqwa grita:
Beggin, beggin you
Put your loving hand out, baby
Beggin, beggin you
Put your loving hand out darlin
um dia, ela vai crescer, e numa tarde de enfado liga a VH1 num program de Smells like 09 e sufoca de espanto ao concluir que a mãe lhe cantava isto em pequenina…
e assim se constroem memórias e destroem reputações…