Arquivo para Agosto, 2011

Agosto 24, 2011

de equilibrio…

Encontrei num momento de tédio e internet disponivel, um blog Americano de uma mulher.

Bonita. Meia loura, meia ruiva, cabelos compridos sempre impecáveis, magra, 3 filhos, um marido que acaba de ser feito partner numa firma de advogados. Sorri da mesma forma em todas as fotos. Aquele sorriso que só as Americanas têm; muito aberto, mostrando os dentes todos, perfeito.

As crianças têm os olhos azuis. São duas meninas e um rapaz bebé que sorri em todas as fotos. Também ele muito Americano e aberto, mostrando os dentes todos, incluindo o que partiu ao cair na semana passada.

Fui saltando de post para post sem conseguir parar e sem conseguir definir se estava a gostar ou não.

Fui ao histórico.

Vi as decorações de Natal dos vários anos. A perfeiçao da combinação de cores e as instruçoes detalhadas de como o fazer. Os preços, as lojas onde encontrar os produtos. Vermelhos e verdes apenas. E branco, claro. Tudo pronto a usar.

Vi os fatos da Noite das Bruxas, as festas do bairro nas ocasiões festivas, a piscina da casa nova da mãe. A arrumação do pantry, as filas e filas de comida enlatada e congelada – porque ela nao cozinha.

O marido alto que engordou no primeiro ano de casado e que ao longo dos postais de Natal se foi vendo recuperando a forma até ficar mais musculado do que nos tempos de liceu.

A festa no escritório quando se tornou partner, a foto com o senior partner e a familia.

A Igreja Mormon que frequentam.

As sextas feiras que ela dedica a um post sobre fashion e vai-se fotogrando no espelho da casa de banho com as diferentes combinações de peças discretas acentuadas aqui e ali por um cinto.

As meninas em rosa, o quarto em branco e rosa, a procura de uma casa nova, a arrumação das gavetas, a arrumação dos armários, a arrumação, a arrumação. O exercício.

Os encontros com amigas, as conferências sobre Parenting.

As receitas de doces para as festas da escola e oferta a professores e amigos feitos à base de M&M’s e outras guloseimas de saco, empilhadas e levadas ao forno ate derreterem e se fundirem.

Mais fotos de familia,

Mais fotografos profissionais a organizarem o postal de Natal.

E numa base diária vou lá – numa espécie de voyeurismo provinciano – espreitar a vida da senhora!

Mais ou menos surpreendida com o facto de  não conseguir perceber se acho tudo aquilo tão absurdamente ridiculo, tão à letra do que deve ser a vida de uma mulher de classe média em ascensão na América, tão distante do que eu conseguiria aceitar como uma possibilidade de realidade para mim e simultaneamente tão confortável. Uma vida calendarizada,  em que os eventos se sucedem e repetem com a mesma cadência das estações do ano, em que na realidade as estações do ano fazem parte da definição do calendário.

E pergunto-me como é possivel viver assim sem acordar um dia pela manhã atacando os  proprios pulsos à dentada.

E depois percebo.

E consigo ver a felicidade da senhora. E o equilibrio da familia. E a importância do postal de Natal. E percebo que vou lá porque acho tudo aquilo enternecedor; os namorados de Liceu que controem um projecto de vida em comum, à semelhança dos pais, dando continuidade à realidade que conheceram. E percebo também que a adoptei a senhora sem que ela saiba. E que como qualquer mãe preocupada, visito-a diariamente com um receio terrivel de que toda aquela realidade tão cuidadosa e amorosamente construida, possa lá não estar no dia seguinte. Porque basta o marido não querer.

E fecho o separador sabendo que penso todas as estas coisas porque me sinto arrogantemente crescida.

E há um conforto enorme, mesclado de presunção, ao perceber que um dia acordamos e realizamos que já retirámos da vida um conjunto de experiências e informações que nos permitem rejeitar sem ter que pensar muito no assunto, uma série de sistemas e atitudes, valores e contravalores. E que por vezes nos podemos definir não necessariamente por aquilo que exarcebadamente defendemos, mas simplesmente pelo que rejeitamos.

E que viver à luz do “não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí” é uma filosofia tão legitima como outra qualquer, mas que na realidade, surpreendentement exige uma constante análise e reflexão que se faz intuitivamente.
E será essa busca que definirá o meu percurso.

A dois!

Agosto 17, 2011

de melhorar de vida…

a minha filha aprendeu 3 acordes na viola e finalmente decorou-os.

ontem compôs uma música e fez uma letra.

a música fala do cão.

não fala da mãe e de quanto a ama.

fala do cão.

e de que o cão morde e foge.

a letra é em estrangeiro. E isso faz-me perdoar o facto de que a sua primeira composição não é sobre a mãe e sobre quanto a ama.

em inglês poderemos cobrir muito mais mercados.

terei que desistir do trabalho e mudar-me para St Barts.

Hollywood não faz nada pela educação de uma criança.

Agosto 15, 2011

de regresso….

Por muito que tente não consigo recuperar a rotina de escrever no Blog.

Não consigo encontrar novidade no dia a dia ou descobrir-lhe momentos que mereçam nota.

O fascínio de se viver numa realidade diferente está apagado pelo cansaço. Já nada é novo e perdemos a capacidade de nos surpreender. Vivemos de comparações e o que já passou supera sempre o presente.

Cansados da dieta alimentar, cansados das pessoas, dos cortes de luz, da água que cheira mal na torneira, do leite que aparece e desaparece nos supermercados, do frango brasileiro, dos preços absurdos, do trânsito caótico onde não existem regras e aconteça o que acontecer a culpa será sempre nossa porque somos estrangeiros, da desvalorização do dólar, dos tubarões no mar agora que os crocodilos estão mais discretos.

gostava de por momentos, só por uns momentos, fazer coisinhas fúteis; ir a um flee market, tocar em coisas velhas, passear na rua sem conviver com a permanente pobreza, atravessar numa passadeira, beber água da torneira, parar e comprar um jornal, apetecer-me cozinhar e poder efectivamente encontrar os ingredientes, dormir de janela aberta, não ter chaves de cadeados, cumprir regras de trânsito, receber correio…

Assim, só por momentos que fosse…

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