Arquivo para Setembro, 2009

Setembro 19, 2009

de massagem 2 …

a menina desta vez não levanta as mãos não junta as palmas e não reza.

não chama o Deus para as mãos.

e massaja.

no dia seguinte acorda-se repousada pela primeira vez desde há muito tempo.

e fica-se a pensar que talvez a dor não exista quando Deus não é envolvido no assunto.

Setembro 15, 2009

de massagem 1 …

A menina levanta os braços, junta as palmas e fecha os olhos.

inspira.

ausenta-se.

reza.

e sente-se imediatamente que vai ser bom porque ela chamou o Deus para as mãos.

apesar disso, no dia seguinte dói tudo.

chame-se-lhe justiça divina…

Setembro 11, 2009

de amor e de sombras…

Irritam-me os blogs intimistas, de grande auto-análise e partilha, egocêntricos, praticamente anais.

Falemos então de mim.

Estou doente.

E repito: estou doente.

E digo-o outra vez: estou doente.

Estar doente não é estar fraco, nem fragilizado, nem dependente. Avaria-se-nos uma coisa. Concertamo-la. Ou não. No meu caso concertamo-la e pronto.

E fica-se triste, claro!

E chora-se e tal. Mas depois desperta-se e organizam-se as coisas e é bom quando olhamos à volta e vemos gente. Ou mesmo sem olharmos sentimos a gente lá.

E a gente não nos agarra com abraços nem nos dá beijinhos no dói-dói. Mas procuram links na net, preços, disponibilizam férias insistem em viagens afuguentam ruidosamente a solidão e a angústia que inevitavelmente se sente quando olhamos o espelho e dizemos a nós próprios: “Estou doente”.

E sabemos que tudo vai ficar bem.

Sei que tudo vai fcar bem.

E não vou dedicar muito tempo a pensar nisso.

Começou a chover em Dili. E quando a chuva bate com força no telhado de zinco e me deito no meu quarto agora branco, agora praticamente organizado e sinto a gente através do som das gotas grossas, sei que este é o meu sítio e definitivamente esta é a minha gente.

E tudo está bem.

Setembro 5, 2009

de peixes e pássaros…

fishPasso a manhã a explicar à siciliana de serviço recentemente obcecada por Pablo Neruda, por ser talvez o único poeta de expressão castelhana que conhece(!!!!), que os poemas que escolhe são uma grande tontice e ninguém se toca quando lê sobre a a alma morta e o sofrimento atroz do espírito.

Passo-lhe um excerto do “livro das perguntas” de Neruda e leio-lhe “Ou não seria a vida um peixe, preparado para ser pássaro?”. E explico-lhe o sentido. Ou o sentido que lhe dou. E ela abre muito os olhos como quando se é criança e se descobre uma coisa ou como quando se é adulto e alguém põe em palavras aquilo que desesperadamente não conseguimos verbalizar.

E a manhã continuou com peixes e pássaros soltos no nosso gabinete e o momento foi bonito.
Assim mesmo, bonito. Como só podem ser bonitas as coisas tocadas por espíritos Chilenos (saudades de Chiloé, saudades de Chiloé…)

Depois de almoço ao regressar ao escritório, pela estrada do farol, há uma pequena onda que se ergue salpicando o alcatrão, trazendo na crista qualquer coisa que cai na estrada.

Era um peixe.

E eu paro e saio e aproximo-me dele com a urgência dos que julgam que têm uma missão.

Apanho-o e ele debate-se e sinto-lhe a pele fria nas mãos e agarro-a com a outra e devolvo-o ao mar.

E perco-o de vista.

Sorrio achando tudo aquilo hilariante tudo aquilo extraordinário tudo aquilo surpreendentemente fantástico depois de uma manhã de pássaros e peixes à solta no gabinete.

Mas à medida que o tempo corre, à medida que a tarde passa e os peixes e pássaros se vão retirando, de cada vez que cheiro as mãos e não lhes sinto o odor que deveria lá estar, sinto o erro.

E penso na vida peixe preparada para ser pássaro, que sobe até à crista da onda e voa caindo na estrada e nas mãos que a agarram e devolvem ao sítio de onde quis sair, negando-lhe o sonho.

e as mãos foram as minhas.

Setembro 1, 2009

de Dame…

côco naufrago

côco naufrago

quando em 99 nos colávamos à televisão a seguir atentamente um Timor que víamos em directo pela primeira vez, não adivinhávamos o horror que se seguiria.

o rapaz cuja imagem foi repetida à exaustão mostrando-o morto numa mancha enorme de sangue na rua,  descubro 2 anos mais tarde ser o irmão mais novo da mulher que se tornaria uma das minhas mais próximas amigas. e esta semana pude juntar-me à familia e amigos e celebrar a vida dele – falhei a missa porque entrei na igreja errada e assisti ao funeral da avó de alguém que ainda hoje – no sítio onde estiver -  estará por certo muito confusa com a minha presença.

10 anos depois os amigos juntaram-se como se se tivessem encontrado na noite anterior, como se nada tivesse mudado e o tempo não os tivesse transformado em gente diferente. 10 anos depois os mesmos amigos que saltaram os muros do cemitério para o ajudar a enterrar e que desapareceram no mesmo silêncio com que chegaram por entre distracções de militares, espalharam flores, acenderam velas e sorriram e conversaram como se fossem novamente adolescentes e como se nada daquilo lhes tivesse verdadeiramente acontecido.

a todos e a cada um foi-lhes retirada a infância. e a todos e cada um dos filhos deles, 2006 reavivou o mesmo ciclo. e o sofrimento torna-se uma coisa tão real, e o medo tão estranhamente familiar que se transforma numa aparente indiferença disfarçada de aceitação.

No discurso dos 10 anos, Ian Martin menciona o conhecido milagre da mesa eleitoral 22.

Na mesa eleitoral 22 apareceu em braços uma velha que tinha morrido no dia anterior. A familia deitou-a, vestiu-a, rodeou-a de velas e velou-a durante a noite. Pela manhã ela desperta e informa-os que tem que ir votar. E foi.

os 10 anos pós referendo são 10 anos de história que se diz imperfeita. Como se houvesse um padrão de qualidade para a história.

os 10 anos de pós referendo são 10 anos de aprendizagem. Nada mais.

com os altos e baixos inerentes à descoberta da democracia num sítio onde o conceito é não só novo como antropologicamente estranho.

os 1o anos de referendo serão 10 anos de história imperfeita para os que acreditam que têm o direito de interferir, para os que acreditam que possuem os modelos perfeitos , a solução ideal, o único caminho viável. A aprendizagem faz-se lamentavelmente através do erro, com a queda, com a decepção. E o caminho vai-se encontrando retirando humildade da experiência.

Timor é a tua primeira terra, minha filha. Está marcado na tua pele, no formato dos teus olhos, na tua obstinação, nas curvinhas do teu corpo em crescimento. E um dia vais aprender sobre as mulheres da tua familia de origem; sobre a forma como viveram, como lutaram, como morreram a resistir. E vais sentir Timor no peito e lembrar o cheiro da terra molhada e aprender a glória da luta, e a dor de resistir e se tudo correr bem, vais sentir orgulho e pertença e fluir entre este mundo daqui e outro para onde te levei e encontrar paz em tudo isso.

Dame!

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 29 other followers