
Flan de cogumelos e boa companhia no VG
Insulting Craft(s)manship since 2007

peixe no vapor com molho de gengibre
salada grega com pequenos vestigios de algo vagamente semelhante a queijo feta
À minha frente desfilam uma a uma jovens adolescentes que procuram trabalho.
Cabelos compridos. Uns mais do que outros. Presos em ganchos ou elásticos com rabos-de-cavalo longos que lhes descansam nas costas. Naturalmente brilhantes e bem cuidados, com um toque de hena ainda em planta aqui e ali. Umas mais estreitas de corpo, outras com pequeninas formas.
Uma nova geração com acesso a educação em universidades estrangeiras da região que pouco ou nada lhes ensinaram. Que regressam com esperança e que acabarão maioritariamente como interpretes.
Pela mão passam-me as cópias dos diplomas em letras pomposas, as fotos nos documentos com o casaco do fotografo e a obrigatória ausência de sorriso.
E enquanto falam eu analiso-lhes o rosto, os olhos, o nariz, as mãos que se mexem a acompanhar o discurso. Os gestos tão femininos naqueles corpos tão pequeninos.
E descubro numa um sorriso parecido ao da minha filha, e noutra os olhos, e noutra talvez o nariz e tento compor a imagem dela adolescente, assim sentada em frente a alguém que lhe definirá o futuro, cheia de esperança, cheia de sonhos.
E peço desculpa e fecho-me na casa de banho a chorar.
Convulsivamente.
Viro-me e constato que a sanita está entupida.
Um grande cócó desolado flutua castanho e resistente.
Bolas! Toda a gente vai pensar que fui eu!
As duas meninas muito jovens e muito morenas, como só aqui se consegue ser, com cabelos compridos, negros e lindos como só aqui se consegue ter, sentam-se com os dois estrangeiros notoriamente Asiáticos, notoriamente ricos, notoriamente seguros e dominantes, no bar do hotel.
Elas encostam as cadeiras uma à outra em jeito de protecção. Eles sorriem e inclinam-se para a frente e falam. A mais baixa das duas, tímida, responde fazendo gestos largos e lentos com as mãos. Pede coca-cola.
Eles bebem Sumol. Sumol laranja. E eu sinto que me sujam a memória do refrigerante da infância.
Angustio-me. Olho para a minha torrada de pão de Taibessi com a manteiga preguiçosa a derreter e sinto um nó no estômago.
Os sorrisos deles continuam. A mais alta das duas brinca com o chinelo; abana-o, apanha-o com os dedos do pé quando ele está quase a cair e volta a balançá-lo.
Apanha-o e volta a balançá-lo e apanha-o e volta a balançá-lo…
Subitamente a mais baixa abre a carteira; tira um pequeno caderno e tira um lápis e tira um gravador. Organiza tudo no colo, inclina-se para a frente e começa a escrever.
Olho para a minha torrada e a manteiga sorri-me; trinco-a. Sabe-me bem.
A mais alta das duas pára de abanar o chinelo, descansa o pé no chão e encosta-se na cadeira. Ainda vigilante. Ainda a cumprir o dever de companhia.

papaia verde estufada, daging rendang
os meus fornecedores vao de ferias a surabaya… 10 dias…

tornaram-se surpreendentemente monotonos…
muito amarelos…
e mto pouco personalizados.
o de hoje tinha no tecto a mensagem “Lord, save us!”
pouco auspicioso…
as coisas sao mais ou menos iguais, os cantos mais ou menos os mesmos
restam poucas das antigas pessoas
recebo um email a dizer welcome home
e choro um bocadinho
acho que sim, que ‘e casa.
em Bali. Reencontro feliz com o nasi goreng.
mas falta-lhe qualquer coisa: uma piolha ao lado a apanhar com os dedos os graos que lhe descansam no colo…
em Kuala Lumpur de pes inchados. maldita classe economica.
a estrategia de nos fazerem sair do aviao atravessando a 1a classe ‘e uma especie de lembrete da companhia aerea: olha onde poderias vir deitado se te tivesses esforcado um pouco mais na vida…
e a comida sabe toda a lemon grass. saudades do lemon grass…
apercebi-me agora que irei passar o Domingo de Páscoa em Bali…
menos mal, menos mal…
“o que é mais preocupante não é o grito dos violentos, dos corruptos, dos desonestos, ou dos sem ética. O que é mais preocupante é o silêncio dos que são bons.”
hoje lembrei-me disto…